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Entretenimento

Joia de Cassiano e do soul brasileiro, o álbum ‘Cuban soul 18 kilates’ chega aos 50 anos sem perda da luminosidade

março 31, 2026Nenhum comentário0 Visitas


Cassiano (1943 – 2021) na foto exposta na capa do álbum ‘Cuban soul 18 kilates’ (1976)
Paulo Ricardo / Reprodução
♫ MEMÓRIA – DISCOS DE 1976
♬ Álbum ora reeditado (pela segunda vez) no formato original de LP, 50 anos após o lançamento em 1976 pelo selo Polydor (braço popular da gravadora Philips), “Cuban soul 18 kilates” é uma das três preciosas pedras fundamentais da discografia de Genival Cassiano dos Santos (16 de setembro de 1943 – 7 de maio de 2021) – gênio da soul music à moda brasileira – ao lado dos dois antecessores “Imagem e som” (1971) e “Apresentamos nosso Cassiano” (1973).
Sob o prisma mercadológico, “Cuban soul 18 kilates” exemplifica o paradoxo que pautou a trajetória deste cantor, compositor e músico que, na virada dos anos 1960 para os 1970, contribuiu decisivamente para a sedimentação da cena de funk e soul brasileiros, alicerçando em 1970 o primeiro álbum do cantor Tim Maia (1942 – 1998), voz sobressalente nessa cena em que também foram relevantes o pianista Dom Salvador e o cantor Tony Tornado, entre outros nomes.
A contradição reside no fato de que “Cuban soul 18 kilates” se tornou o álbum mais popular de Cassiano por ter sido impulsionado com a inclusão de duas grandes canções do repertório, “A lua e eu” (1975) e “Coleção” (1976), nas trilhas sonoras de duas novelas da TV Globo, “O grito” (1975 / 1976) e “Locomotivas” (1977), respectivamente, mas nem por isso garantiu a continuidade da carreira do artista. Ao contrário.
Após o álbum, Cassiano saiu da Philips e foi para a CBS (tornada Sony Music em 1991) gravar álbum abortado e até hoje dado como perdido. O cantor somente gravaria o quarto álbum em 1991, “Cedo ou tarde”, 15 anos após a edição de “Cuban soul 18 kilates”, já no esquema de feats, regravações e eventuais músicas inéditas.
Hits do álbum que atravessaram gerações, “A lua e eu” e “Coleção” são duas grandes canções românticas de alma soul, com melodias de recorte absolutamente original. Balada de tom melancólico, “A lua e eu” chegou antes do álbum, no fim de 1975, como faixa do LP editado pela gravadora Som Livre com a trilha sonora nacional da novela “O grito”, estreada em outubro daquele ano de 1975.
Já “Coleção” ganharia popularidade e se tornaria um hit radiofônico somente em 1977, veiculada diariamente na novela “Locomotivas” como tema de Fernanda (Lucélia Santos), uma das protagonistas da trama blockbuster das 19h.
Tanto “A lua e eu” como “Coleção” foram compostas por Cassiano com Paulo Zdanowski (28 de fevereiro de 1954 – 29 de setembro de 2023), cantor, compositor, guitarrista e produtor musical carioca que se tornou fundamental na criação e formatação deste terceiro álbum solo do parceiro revelado nos anos 1960 em grupos como Bossa Rio e Os Diagonais.
Conhecido artisticamente como Paulinho Motoka, Zdanowski não somente orquestrou a produção musical do álbum “Cuban soul 18 kilates” ao lado de Gastão Lamounier (1942 – 2001), como assinou com Cassiano todas as nove músicas que compõem o repertório inteiramente autoral do álbum.
Além de “A lua e eu” e “Coleção”, o álbum “Cuban soul 18 kilates” traz pepitas como “Ana”, angustiada balada elevada por Cassiano aos céus em gravação que exemplifica a arquitetura majestosa dos arranjos orquestrados para o disco pelo pianista Don Charles (falecido em 2017) e pelo maestro Miguel Cidras (1937 – 2008)., sendo que o arranjo de “Ana” é de Charles.
Aberto com “Hoje é Natal”, primeira canção natalina do soul brasileiro, o álbum “Cuban soul 18 kilates” é álbum de soul e funk com influências de música brasileira e ecos do som do cantor Otis Redding (1941 – 1967) e do grupo Sly & The Family Stone, referências do soul norte-americano.
Como em 1976 a disco music já começava a dominar as pistas dos Estados Unidos, em ascensão que já reverberava no Brasil, Cassiano bebeu dessa fonte dançante e pop da black music na música “De bar em bar”.
Baixada a maré da inebriante disco music, o tempo fez mais justiça a faixas como “Onda”, tema que se tornaria cultuado desde que foi sampleado em 2002 pelo grupo de rap Racionais MC’s na gravação de “Da ponte pra cá” (Mano Brown), música que fecha o álbum duplo “Nada como um dia após o outro dia” (2002).
Se o groove do funk “Central do Brasil” é puro baile à moda Black Rio, movimento que vivia momento de grande visibilidade naquele ano de 1976, o balanço frenético de “Saia dessa fossa” evoca o suingue de Sly Stone (1943 – 2025) enquanto “Salve essa flor” reveste o álbum de lirismo com apelo poético pela vida e pelo cultivo do amor diante de tantas ervas daninhas no jardim de um Brasil cujo solo vivia então irrigado pelo sangue derramado pela aparelho repressivo da ditadura.
Contudo, essa possível interpretação política da letra nunca foi exposta por Cassiano, soulman romântico e melancólico que legou joias como “Cuban soul 18 kilates”, álbum que fecha a fundamental trilogia fonográfica desde artista paraibano que, embora cultuado, passou anos em injusto e cruel ostracismo, longe dos estúdios de gravação.
O tempo rei se encarregou de consagrar o artista e de lhe garantir lugar de honra na posteridade. O álbum “Cuban soul 18 kilates” chega aos 50 anos sem perda da luminosidade.
Capa do álbum ‘Cuban soul 18 kilates’ (1976), de Cassiano
Paulo Ricardo com arte de Luiz Trimano

Fonte: G1 Entretenimento

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