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Home»Entretenimento»Sina de Ofélia: entenda a reviravolta da música de IA que agora é copiada por humanos
Entretenimento

Sina de Ofélia: entenda a reviravolta da música de IA que agora é copiada por humanos

fevereiro 4, 2026Nenhum comentário14 Visitas


Sina de Ofélia: como uma música de IA vem sendo copiada por humanos
Cópia da cópia da cópia… É mais ou menos assim que funciona o esquema de composição das dezenas de versões brasileiras de “The Fate of Ophelia” — o hit da vez de Taylor Swift. Chamadas de “Sina de Ofélia”, as releituras começaram a surgir em dezembro de 2025 e, desde então, não param de se multiplicar.
Só no Spotify, existem pelo menos 40 faixas com esse nome, e três delas aparecem no Viral 50, ranking que mostra os principais hits das redes no momento. Já no YouTube, o título “Sina de Ofélia” está em mais de 30 vídeos. Desses, muitos são clipes produzidos por inteligência artificial. É o mesmo jeitinho do qual a maioria das canções é feita.
Cantando como IA
A primeira “Sina de Ofélia” viralizou como meme. Sob autoria desconhecida, ela foi criada a partir de ferramentas de IA que transformaram o hit da loirinha em um pop abrasileirado, com pegada de samba e funk.
A letra manteve a essência da original, mas aproximou sua linguagem aos ouvidos nacionais. Já o vocal de Taylor foi trocado pelos de Luísa Sonza e Dilsinho. Ou quase isso: a IA imitou suas vozes.
O uso de voz sem autorização pode render (ao dono da canção) problemas judiciais, mas nem Luísa, nem Dilsinho se mostraram incomodados com o fato de terem tido seus vocais roubados. Pelo contrário: ambos postaram vídeos em que dublam a música e dão risada.
O apoio dos cantores ajudou na repercussão de “Sina de Ofélia”, e não demorou muito para a faixa ganhar videoclipes de IA. Com mais de 1,5 milhão de visualizações, um deles mostra sósias de Luísa e Dilsinho — ela vestida de princesa, e ele de príncipe. Diante de um castelo, os cantores encenam um drama romântico que parece ter saído de um conto de fadas.
Apesar do tom realista das cenas, é fácil sacar que nada ali foi gravado com seres humanos. Mas em termos de som, é difícil perceber o uso de IA. Prova disso é que muita gente pensou que os cantores tinham realmente lançado o dueto.
Clipe de IA de ‘Sina de Ofélia’ no YouTube
Reprodução/YouTube
Versão para dar e vender
Semanas após seu surgimento, “Sina de Ofélia” foi removida do Spotify e do YouTube. Mas logo voltou às plataformas — e dessa vez, com maior influência, ganhando dezenas de versões.
Sertanejo, disco, EDM, forró, pagode baiano, R&B e trap são só alguns exemplos dos gêneros que diferenciam as versões entre si. Há também faixas com (réplicas de) vocais de cantores como Felipe Amorim e Duda Kropf.
Já a letra raramente tem alteração — vez ou outra, há pequenas mudanças tipo os pronomes masculinos de “Sina de Ofélio”.
Assim como a primeira releitura de “The Fate of Ophelia”, todas essas músicas foram criadas com inteligência artificial. A autoria também vem de perfis de identidade misteriosa. Mas isso tem começado a mudar.
Cada vez mais artistas de carne e osso entram na onda de “Sina de Ofélia”. É o caso de cantores como Solange de Almeida, Rikinho e Raissa, que trabalharam sobre a faixa de IA. Os músicos, porém, deram humanidade à canção ao inserir ali gogó verdadeiro, produção de beats e instrumentos reais.
Apesar desse tom humano, os cantores mantiveram a base melódica e a letra de IA em suas gravações. Ou seja: artistas copiaram uma obra de IA.
Print de faixas de ‘Sina de Ofélia’ na playlist oficial do Spotify ’50 Que Viralizaram – Brasil’
Reprodução
Copiando a cópia da cópia
No mercado da música, cópias precisam de autorização expressa porque, caso contrário, existem de forma irregular. Mas será esse o caso?
Sem autorização de Taylor Swift, os criadores das músicas de IA não têm direitos sobre “Sina de Ofélia”. Por isso, não podem contestar regravações das faixas.
“Essas músicas de IA são versões não autorizadas de ‘The Fate of Ophelia’. Elas não são plágios, porque ‘plágio’ seria se elas estivessem se passando por outra coisa mesmo sendo idênticas à música da Taylor”, afirma o advogado Gustavo Deppe, especializado em direito autoral na música. “Se houvesse a autorização, aí, sim, haveria o direito dos versionistas.”
O advogado explica que o fato de haver, ou não, o uso de IA no processo criativo musical não interfere nesse tipo de questão. As discussões sobre inteligência artificial na indústria têm tido dilemas como a definição de critérios para lucrar nas plataformas.
Gustavo também diz que muitas músicas são como “Sina de Ofélia”: versões que, mesmo sem autorização do dono, ficam no ar e fazem sucesso. “O mercado da música é um tanto quanto informal. Se derrubar, derrubou. Se não, fica aí.”
Clipe de ‘Sina de Ofélia’
Reprodução/YouTube
Segundo o advogado, é necessária maior rigidez das plataformas digitais. “O Spotify recebe um pedaço desses royalties aí [das várias faixas de ‘Sina de Ofélia’]”, diz ele. “No geral, quem é rígido mesmo [contra violação de direitos] é a gravadora ou o artista.”
Questionada pelo g1, a assessoria do Spotify encaminhou um artigo da empresa em que são descritas as medidas mais recentes adotadas pela plataforma para combater “os piores usos da IA generativa”.
O Spotify afirma que continuará a lançar novas políticas e que atualmente tem foco em “reforço na aplicação de violações por imitação; um novo sistema de filtragem de spam; e divulgação de uso de IA em músicas com créditos dentro do padrão da indústria”.
A assessoria do YouTube — plataforma que engloba videoclipes de IA de “Sina de Ofélia” —, diz que o principal objetivo do site “é garantir que o ecossistema criativo seja sustentável” e permitir que “os criadores protejam sua propriedade intelectual”.
“Oferecemos um conjunto de ferramentas robustas e políticas claras para que os detentores de direitos autorais possam proteger e gerenciar seu conteúdo, desde usuários comuns até grandes empresas de mídia, diz a nota do YouTube.
“Qualquer usuário pode utilizar o formulário online para remoção por direitos autorais para solicitar a retirada de vídeos que considerem infringir seus direitos. Para detentores de direitos que gerenciam grandes volumes, oferecemos ferramentas avançadas como o Copyright Match Tool e o Content ID. Se um criador copiar o conteúdo audiovisual específico de outra pessoa, nossas ferramentas e políticas permitem que o detentor de direitos solicite a remoção ou, em alguns casos, opte por monetizar o vídeo.”
IA também inspira
“Sina de Ofélia” virou referência para humanos copiarem a música de Taylor, mas também inspirou a criatividade artística para novas versões produzidas por mente humana. Foi assim que surgiu “Não sou Amélia”, da cantora paraense Tempestade do Melody.
Pensando no sucesso das versões de IA, a artista decidiu entrar na onda e compôs outra versão para “The Fate of Ophelia”. A faixa, que viralizou nas redes, tem a cara do rock doido, movimento de tecnobrega que explodiu em 2025.
Ao som dançante de tecnomelody, “Não sou Amélia” tem uma letra que rejeita a figura submissa da musa de “Ai Que Saudades da Amélia”, hit de samba de Ataulfo Alves e Mário Lago.
“Todo tempo sozinha nessa porra, você foi pro rock doido e mandou eu te esquecer. Pra quê me trouxe de volta pra sua vida? Eu não sou tua rapariga, nem Amélia”, canta Tempestade na música, que soa bem mais brasileira do que qualquer outra feita por IA. Talvez, esse ainda seja um conceito humano demais para ser captado por um prompt de IA.
Cena do clipe ‘Não sou Amélia’
Reprodução/YouTube

Fonte: G1 Entretenimento

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